Um dia, no fim da tarde, estava eu na horta de minha casa, com minha mãe. Estavamos mexendo na terra, e vi, vindo do poente, um palhaço. Era um palhaço estranho, meio sério demais, vestia uma roupa xadrez, parecia um terno antigo normal, nada parecido com as exuberâncias de palhaços comerciais do tipo Bozo ou do tipo Ronald Mac Donald. Mas, o que eu vi era também muito solene para essas minhas referencias da época - um terno num palhaço só se fossem Gordo e Magro, Três patetas ou Chaplin. O que vi, mostrei para a minha mãe e ela não viu.
Mas eu me lembro bem da imagem e da sensação mas faz muito tempo, muitas décadas, na época eu devia ter uns cinco ou seis anos, uns quarenta anos atrás - algo assim. Eu por mim era uma criança bem alegre e gostava muito de palhaços, tinha uma atração por tudo o que fizesse rir, o humor dos mais velhos, as piadas, os jeitos apatetados de personagens cômicos. A atração era grande e cheguei mesmo a pedir para uma de minhas irmãs, que me mimava e protegia, que no carnaval uma roupa de palhaço fosse a minha fantasia - e ela, amorosa, não me decepcionou. Tenho uma foto maquiado com meu macacão de cetim verde e uma peruca feita com meia calça e lãs.
Eu não desconfiava de como as coisas se encaminhariam em consequencia do meu desejo infantil. Hoje tenho medo dos desejos, percebo o quanto eles movem a humanidade. Mas, realmente, o que eu desejei era um desejo infantil, e por isso: inocente, inconsequente, e, resultado bem impressionado pela mídia da época: "Os trapalhões" marcavam meus domingos à noitinha, o Renato Aragão tinha meu nome, rolava uma identificação...
O tempo passou, fazia teatro mas não imaginava os caminhos de um profissional de circo exceto pelas míticas fugas com os circos passantes na cidade. Eu cheguei a ir em circos à época em que tinham animais e num deles vi os meus ídolos de domingos na minha cidade, mas nem assim pensei em fugir com eles. Quando adulto me surpreendi comigo mesmo descobrindo e ingressando em uma faculdade de Artes Cênicas, e não é que no meu terceiro ano teria aulas de Técnicas circenses, com um professor palhaço. Fui iniciado em muitas técnicas, aprendi monociclo no mesmo dia em que subi nele, ainda que não tenha desenvolvido manobras andava quilometros e subia ladeiras. Falavam que eu devia tocar acordeon sobre monociclo, mas nunca tentei. As técnicas foram se consolidando em mim, segui adiante fui fazer eventos.
Depois de muitos anos percebi: o palhaço que vi era eu.
domingo, 2 de dezembro de 2018
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
Palhaço Olírico em ação
domingo, 18 de abril de 2010
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